A cena Hardcore de Nova York.

Do submundo de Nova York, surge uma das cenas mais influentes de Hardcore.

Decidimos nos aprofundar um pouco mais dentro do mundo do punk rock. Muito já é conhecido sobre o gênero, seu início, as diversas influências, os diferentes cenários que o punk criou, tudo isso. Da explosão inglesa de bandas punk, à gênese do movimento hardcore californiano, o assunto já foi abordado sob diversos aspectos. Pode-se também analisar o movimento como migratório, tendo início com os Ramones e as bandas do CBGB’s em Nova York, logo em seguida mudando-se para a Inglaterra de Damned, Sex Pistols, e The Clash, e enfim retornando aos EUA para se estabelecer na Califórnia, durante os anos 80 e 90, tendo um novo fôlego por meio do hardcore.

Porém tem algo que vale a pena ressaltar, o punk na verdade não seguiu um caminho linear, mas se expandiu para todos os lados, e por onde passou sempre permaneceu. Uma cena de uma determinada cidade sempre permanece viva e ativa. Quando se fala de hardcore é fácil lembrar da cena californiana, bandas como Black Flag e Circle Jerks, mas ele coexistiu em outras cidades. Em Nova York, após o impacto inicial do Ramones, e após o punk rock migrar para a Inglaterra, o gênero continuou vivo no underground da cidade. É aí que entra o New York Hardcore (NYHC).

Nova York, desde as raízes do punk, foi o cenário ideal para um gênero musical com uma mensagem antagônica como o punk. Desde os anos 50 a cidade vivia uma grande decadência. Pessoas se mudavam da cidade para os subúrbios, a violência cresceu, e a maior cidade do mundo viu-se abandonada. Já no final dos anos 70, cidades como Los Angeles e Washington já possuíam cenas de hardcore. Uma banda que foi imprescindível para que Nova York também criasse sua própria cena foi o Bad Brains. A banda de Washington, com a sua “positive mental attitude” chamou atenção dos nova yorkinos. Após o punk surgir ressaltando a todo momento tudo o que estava errado, o hardcore de Nova York decidiu ressaltar como  melhorar tudo o que estava errado, tendo como inspiração a mensagem PMA dos rasta punks.

A primeira banda a moldar uma cena foi o Agnostic Front, possivelmente a pioneira do hardcore em Nova York, e em seguida surgiram bandas como Cro-Mags, Reagan Youth, e Murphy’s Law, que fizeram da cena da cidade um dos grandes pilares do hardcore. Foi um novo fôlego para o punk rock, que até então estava se tornando mais conceitual e artístico, e retomando a agressividade e velocidade nas músicas, o hardcore se estabeleceu como o mais punk dos subgêneros do punk.

 

Agnostic Front – Gotta Go

 

O que fez de Nova York uma cidade única dentro do hardcore, foi que a mudança porém não foi simplesmente musical, e junto ao novo subgênero surgiu uma nova atitude, por parte das bandas e dos fãs também. A cena da cidade ganhou um grande diferencial, que marcou como diferente das cenas de Los Angeles e Washington. Uma nova ideologia, mais ou menos dizendo, mais racional, mais responsável, buscando de fato passar uma mensagem concreta por meio da música. As bandas não mais eram um bando de junkies e trombadinhas, encrenqueiros que acidentalmente entraram no mundo da música, mas pessoas mais responsáveis, muitos jovens que não necessariamente vinham das ruas sujas, mas de casas de famílias, que utilizavam da música uma válvula de escape para agressividade. Dessa filosofia straight edge, idealizada pelo Minor Threat em Washington, rejeitando drogas e bebidas, e usando a música para passar uma imagem mais “responsável”, bandas de Nova York mostraram interesse em passar uma mensagem diferente da completamente anárquica que o punk rock já era tão acostumado. Essa atitude se instaurou com a segunda leva de bandas do NYHC, com bandas como Sick of it All, e Youth of Today, a segunda sendo uma das primeiras bandas a pregar o vegetarianismo e veganismo, usando a agressividade do hardcore para tal, o que foi um impacto na época, mas que indiscutivelmente abriu o caminho para bandas como Rise Against fazer o mesmo, anos mais tarde.

 

Youth of Today – No More

 

Toda essa atitude que veio junto com o hardcore não ficou apenas presa dentro do universo do punk rock, mas influenciou outras culturas externas, que também surgiam na época, como o rap e hip hop, e um grupo que fez essa ponte da atitude hardcore com o universo do hip hop foram os Beastie Boys. Posteriormente a atitude também saiu dos limites da cidade de Nova York, e passou a tomar conta não só de outras cidades nos Estados Unidos, como em vários países do mundo. O grande legado deixado pelo NYHC foi essa filosofia embasada na atitude dos indivíduos da cena, e toda essa atitude vem da juventude, e a melhor parte do hardcore de Nova York é que ele não foi só uma faísca, mas uma chama que perdura até os dias de hoje, sempre altamente ativa, sempre fazendo barulho, e sempre sobrevivendo da maneira mais punk rock possível. Desde as primeiras levas de bandas da cena, muitas outras foram surgindo, quase como um imenso iceberg em que o que se vê é apenas a ponta, mas no fundo há muito mais do que aparenta. O espírito do hardcore de Nova York continua respirando, seja por bandas da velha guarda que continuam na ativa, bandas em outras cidades que adotaram a mentalidade hardcore nova yorkina, ou bandas que surgiram mais recentemente que ainda carregam a bandeira do movimento, sendo elas H2OStray from the Path, e This Is Hell.

Se o punk se tornou mundialmente conhecido pela imagem, e acabou inevitavelmente sendo visto como aparência, o hardcore por outro lado conseguiu reforçar a atitude punk, e criar uma filosofia própria para cada cena underground que se viu surgir. Filosofias com base em atitudes e valores que sobreviveram ao longo dos anos, inabaláveis com as mudanças sociais, mostrando-se sempre verdadeiras. Foi um gênero que deixou simplesmente de ser apenas um estilo musical, rompeu as barreiras sonoras, e tornou-se um movimento de significativa expressão social. Talvez isso tenha feito do hardcore o mais punk dos subgêneros do punk rock.