A homenagem de Fat Mike aos finados em ‘Doornails’.

No dia de finados, analisamos profundamente a homenagem que Fat Mike presta aos que partiram, numa das músicas mais atípicas do NOFX.

Com o fim de ano chegando, adentramos no primeiro feriado de Novembro. O dia de hoje, em que celebramos o Dia de Finados. É muito fácil, e altamente compreensível deixar ser levado pela empolgação pelo simples fato de ser um feriado, pois entendemos que não, ninguém é de ferro. Mas para muitas pessoas é uma data importante, para relembrar pessoas queridas que por um acaso do destino não estão mais entre nós.

Vamos trazer essa discussão para o mundo do Punk Rock, e para isso, utilizaremos como porta voz o NOFX, já que dificilmente alguém que gosta de punk, não gosta da banda. É uma das bandas mais clássicas oriundas da Califórnia nos últimos 30 anos, que mais deixaram uma marca com uma essência única no cenário do Punk Rock californiano, e uma das poucas a alcançar uma longevidade, sem sinais de parar.

Não é preciso explicar muito, todos que gostam de NOFX sabem muito bem os motivos pelo qual eles tem seu devido status no universo alternativo. Sempre mostraram-se irreverentes, bem humorados, músicas enérgicas e recheadas de letras que, ainda que às vezes absurdas, demonstram muita criatividade e inteligência na maneira que vários temas são abordados, sejam assuntos fictícios, sócio-políticos, e críticas ao mundo industrial (e a própria indústria musical).

Mas além disso também existem as músicas em que Fat Mike, vocalista e principal compositor da banda, tem uma abordagem mais pessoal e direta. E sim, muitas vezes acabam sendo aquelas músicas mais lentas e calmas, que muitas pessoas acabam passando por não ter a clássica energia impulsionante que outras possam ter, mas elas guardam coisas especiais. Uma dessas músicas é Doornails, a 17ª faixa do décimo álbum de estúdio da banda, Wolves in Wolves’ Clothing. Em pouco mais de 2 minutos, Fat Mike faz um brinde à várias pessoas. Existe muito debate sobre todas as pessoas citadas na música, e prestando a devida atenção, logo percebe-se que o brinde é de fato uma homenagem a pessoas que partiram antes da hora devido ao abuso de substâncias, suicídio, e outras causas que poderiam ser prevenidas. Pessoas em geral do mundo do Punk, que em algum momento tiveram importância para Fat Mike, e influenciaram sua carreira.

Começamos com Derrick Plourde, baterista do Lagwagon e Rich Kids on LSD (RKL). O RKL tem história com NOFX de longa data. Ambas as bandas foram colegas de gravadoras, pela Mystic nos anos 80, e Epitaph nos 90. Posteriormente, o Lagwagon tornou-se uma das bandas da gravadora de Fat Mike, a Fat Wreck Chords, dando continuidade ao contato de Derrick com o NOFX. Suspeito de sofrer transtorno bipolar, e lutando contra o vício das drogas, Plourde cometeu suicídio com um tiro na cabeça em 2005, aos 33 anos. Rifle, Coffee and Cigarettes, e Give It Back são todas músicas do Lagwagon, citadas logo na primeira estrofe, enquanto Fat Mike dedica a Derrick dois ‘shots’ em sua memória. Na estrofe seguinte surge ‘Jimmy’, ou Jim Cherry, o baixista do Strung Out, outra banda da Fat Wreck Chords. Ultimate Devotion, Mind of my Own e Bring Out Your Dead são canções do Strung Out, novamente introduzidas à letra da música. Jimmy tinha costume de  instalar carpetes em troca de favores, e Fat Mike agradece pelos carpetes e pelas músicas. Jim ficou limpo após anos de abuso de substâncias, mas mesmo assim seu desgastado coração causou sua morte aos 30 anos.

No refrão, há saudações pra diversas pessoas, começando com uma tequila para ‘Jason’. Muitos acreditam que seja Jason Sears do RKL. Sears faleceu em Janeiro de 2006 — após a música ser gravada — , vítima de uma trombose pulmonar numa clínica de desintoxicação, para tratar seu alcoolismo. A outra possibilidade é que a homenagem seja a Jason Thirsk, guitarrista do Pennywise. Thirsk lutou contra o alcoolismo, que levou ao seu suicídio aos 28 anos, em 1996. De qualquer forma, são duas pessoas que Fat Mike possuía motivos de sobre para prestar homenagem.

Em seguida uma cerveja para ‘Andy’ Crighton, baixista da banda britânica Leatherface, outra vítima de suícidio após luta contra o alcoolismo. Sua outra banda, o Snuff teve lançamentos pela Fat Wreck. “Doses”, ou LSD, dedicados a ‘Bomer’ (Richard Manzullo), baterista original do RKL, vítima de ataque cardíaco decorrente das drogas. Uma picada para ‘Bradley Nowell’ do Sublime. Vocalista, guitarrista, fundador, e líder do grupo de Ska Punk, Nowell sofreu uma overdose fatal de heroína em 1996, meses antes do lançamento do terceiro disco da banda, que acabou sendo o último, e também maior sucesso deles. Mesmo não possuindo um vínculo direto, Fat Mike mostra o respeito e apreciação que tinha por Bradley, e a importância que o Sublime teve na época para a cena musical californiana.

Chris ‘Lumpy’ Lagerborg, batera do The Joykiller e Down By Law, duas bandas que estavam na Epitaph na mesma época que o NOFX, morreu dormindo, e para ele Fat Mike dedica Ritalina, usada para tratar a narcolepsia. James ‘Lynn’ Strait vocalista da banda Snot, e seu cachorro Dobbs faleceram num acidente de carro. Ainda presta homenagens a sua mãe, cujos vícios eram maiores que do próprio filho, e a Friday, que até hoje ninguém sabe quem seja, possivelmente um amigo próximo de Fat Mike.

Neste ano o NOFX lançou seu novo disco First Ditch Effort, e nele tem a faixa I’m So Sorry Tony, onde Fat Mike novamente se viu na necessidade de prestar sua devida homenagem a Tony Sly do No Use for a Name. Tony era frontman do grupo desde os 18 anos, quando entrou para a banda, e se tornou uma personalidade muito querida e influente na cena de Punk Rock californiano dos anos 90. Ele faleceu em Julho de 2012 enquanto dormia, aos 41 anos de idade.

No Brasil também tivemos perdas dentro da cena Punk. Ano passado Fabiano Andrade do Blind Pigs faleceu aos 36 anos, vítima de um ataque cardíaco. Talvez a mais significativa perda que tivemos tenha sido Redson Pozzi do Cólera, falecido em 2011 por decorrência de uma úlcera no estômago. A banda foi pioneira do Punk Rock no país, e a importância e influência que Redson ainda são fortes mesmos nos dias de hoje, décadas após o início de sua carreira. O RATS também prestou uma homenagem a Redson, gravando um cover da música Medo do Cólera.

No final das contas o que importa é manter sempre viva a memória de quem partiu, seja um músico, um artista, ou uma pessoa querida, celebrando o que fizeram de bom, e as alegrias que nos proporcionaram. E o que sempre ajuda para qualquer situação, e nessa não é diferente, é a música. Com isso, todos nós da Crasso desejamos a todos um ótimo feriado.