Dub: o mais influente subgênero do Reggae.

Um pouco sobre o que é, como, e de onde surgiu o subgênero do Reggae que criou seu próprio universo e cimentou seu lugar na música.

Hoje decidimos fazer algo diferente, experimentar novos ares, e mostrar que não vivemos apenas de Punk Rock e Ska. Aliás, tão importante quanto, a ponte que liga esses dois gêneros é o Reggae. É um gênero altamente popular, mas assim como qualquer movimento que consegue grande reconhecimento, também é visto sob um olhar estereotipado, e generalizado. O Reggae que uma pessoa conhece e está acostumada pode não ser o mesmo que outra escuta. Vai muito além do que apenas dreads, cachoeira, praia e “fumaça”. É um gênero muito mais amplo do que pode se imaginar. Por isso nosso foco hoje será falar um pouco sobre o Dub.

O Dub na verdade é um gênero musical próprio, vindo do Reggae, servindo como uma vertente para uma nova forma de música jamaicana, criando o seu próprio universo musical. Suas características principais estão nas técnicas que o diferem do Reggae tradicional. Tem uma predominância de remixagens, manipulação direta em cima de gravações já existentes. O costume é remover os vocais para aumentar o espaço pra bateria e pro baixo, focando de maneira pesada na batida da música. É o que se chama “riddim”. Além disso é feito uso pesado de efeitos como ecos, reverbs, e ,é claro, dubbing de vocais. Mas essas informações técnicas muitas vezes passam despercebidas pela maioria das pessoas, então vamos com calma, vamos começar do início.

The Crystalites – The Undertaker

Pode não ser de conhecimento geral, mas a Jamaica sempre foi muito rica em reinventar sua cultura já existente, com uma proposta ou um aspecto diferente,e dessa maneira criando novas culturas, todas elas com uma enorme e forte raiz em comum, e a música é talvez a prova mais concreta disso. Eles já fazem isso desde os tempos anteriores ao surgimento do Ska. É um dos pontos mais interessantes da cultura do país, mas talvez falemos disso futuramente, pois hoje vamos falar do Dub. Durante a década de 60, enquanto num lado do mundo a nublada e “pálida” Inglaterra vivia um renascimento cultural após décadas de hiato (consequências de duas Guerras Mundiais) com Beatles, Stones, e a invasão britânica tomando conta do mundo, no outro a ensolarada Jamaica vivia sua própria época de frutos riquíssimos de cultura dentro da música. Primeiramente com o Ska, e logo em sequência com o Reggae, a Jamaica também viveu um renascimento cultural por meio da música, criando um estranho e interessante paralelo com o mesmo país que por séculos a colonizou, e ambos passavam por fases iguais na mesma época.

Foi já em 1968, em Kingston, que um operador de som chamado Rudolph Redwood foi ao estúdio de Duke Reid para editar uma cópia de On the Beach dos Paragons, e no processo, o engenheiro de som acidentalmente esqueceu  de adicionar a faixa com os vocais. Redwood ficou com o resultado e levou pra tocar em sua próxima festa, e a faixa sem vocais foi substituída por um toast por parte do seu deejay, colocando seu próprio vocal sobre a música no momento. Foi um sucesso, e não demorou muito para a prática ser copiada. Daí surgiu o nome Dub, já que eram literalmente duplicatas de músicas já existentes, cópias com uma marca única. Depois daquela noite, o famoso produtor jamaicano Bunny Lee se juntou ao engenheiro de som King Tubby para criarem faixas instrumentais, já que as pessoas gostaram tanto. Juntos eles criaram uma faixa sem vocais de Ain’t Too Proud to Beg de Slim Smith. Bunny mudava a ordem dos vocais com a parte instrumental, e mixava tudo de uma só vez. Isso fez com que muitas pessoas fizessem experimentações com mixagens, que era alimentada ainda mais pela rivalidade de operadores de sistemas de som, já que eles buscavam tocar músicas únicas em festas e danceterias, então eles encomendavam várias cópias de uma mesma música de estúdios diferentes, cada uma com uma mixagem diferente da outra. Em 1970 foi lançado o primeiro álbum instrumental de Reggae, The Undertaker de Derrick Harriott and the Crystalites, produzido por Errol Thompson. Três anos depois de Errol, Lee “Scratch” Perry e Herman Chin Loy, dois outros importantes produtores de Reggae perceberam que havia uma demanda para esse novo som, e focaram seus esforços para a produção desse novo gênero. Scratch lançou Blackboard Jungle Dub com sua banda The Upsetters (sob o nome de Upsetters 14 Dub) em 1973, e mesmo com uma prensagem de apenas 300 cópias, tornou-se um marco  para o movimento em ascensão. No ano seguinte três lançamentos catapultaram ainda mais o movimento, Pick a Dub de Keith Hudson, At the Grass Roots of Dub e Surrounded by the Dreads at the National Arena de King Tubby.

The Upsetters 14 Dub – Blackboard Jungle Dub

A partir dos anos 80, o Dub continuou crescendo, dessa vez com influências da música eletrônica, do Punk Rock, e até mesmo do Hip Hop, acompanhando a nova vanguarda de estilos musicais que também buscavam novas ferramentas para se desprenderem do que já era comum dentro do universo musical. Até hoje álbuns de Reggae continuam fazendo versões instrumentais para performances ao vivo de operadores de som e deejays. Em 1981 o grupo japonês Mute Beat começou a tocar Dub utilizando instrumentos musicais ao invés de equipamentos de estúdio, e a partir daí o Dub deu luz a novos estilos como Acid Jazz, Ambient, e Trip Hop. Na mesma época a Inglaterra adotou o Dub, com nomes como Mikey Dread, Mad Professor e Jah Shaka, e chegando a influenciar artistas como The Clash, The Police, e UB40, cujo álbum Present Arms in Dub tornou-se o primeiro do gênero a entrar no Top 40 do Reino Unido. O mesmo ocorreu nos EUA, onde a banda de Rasta-Punk Bad Brains introduziu o Dub para o cenário Punk norte-americano, alimentando ainda mais o burburinho de criatividade no mundo underground, influenciando bandas como Rancid a misturar elementos da música jamaicana dentro de seu próprio estilo.

UB40 – Present Arms in Dub

Na mesma época, um garoto chamado Hopeton Brown começou a fazer sua contribuição para o Dub. Durante os anos 70, passou sua adolescência trabalhando como assistente nos estúdios de King Tubby na Jamaica. Sua proeza nas mixagens lhe renderam o apelido de Scientist, e com esse nome ele passou a lançar seus próprios álbuns em 1980. Fazendo uma mistura de elementos da música eletrônica e do Hip Hop em músicas de outros artistas de Reggae, conseguiu criar seu próprio estilo. Se tornou um dos principais nomes a fazer essa abordagem ao gênero, utilizando de artifícios eletrônicos para diminuir o ritmo das músicas, adicionando efeitos sonoros, ecos, tudo que fosse capaz de dar mais profundidade ao seu som.

Scientist – Dance of the Vampires

No Brasil, alguns dos primeiros registros do Dub na cena musical nacional foram feitos pelos Paralamas do Sucesso, com as músicas Teerã Dub e Marujo Dub, do álbum Selvagem de 1986, mas foi só na década seguinte que fora popularizado de maneira concreta no país. Desde sua estréia em 1994, O Rappa já mostra a influência do Dub sobre o estilo da banda, e em apresentações ao vivo eles tem o costume de fazer versões Dub de suas próprias músicas. Num grau menor, o gênero também chegou a influenciar Chico Science & Nação Zumbi, em sua mistura de estilos musicais que causou na criação de sua própria identidade que virou a essência da banda. A banda de Reggae Cidade Negra lançou em 1999 o álbum Dubs, o primeiro álbum exclusivamente de Dub no Brasil. Além de bandas como SkankReggae BDjambi, e Echo Sound System, todas elas já tendo feito músicas Dub.

Da mesma forma que exerceu influência, o Dub também sofreu muita influência de inúmeros outros estilos musicais, permitindo um maior alcance e diferentes abordagens, dando ainda mais vida ao gênero. Hoje em dia o Dub ainda perdura em todos os cantos do mundo, com bandas novas surgindo, e mesmo os artistas que foram os responsáveis pela popularidade do estilo musical, como Lee “Scratch” Perry e Mad Professor, continuam na ativa, lançando álbuns, carregando a bandeira do movimento ainda firme e forte.