Hangar 110, Scott Shiflett e o cenário brasileiro

Hangar 110, Scott Shiflett e o cenário brasileiro

Prestes a nos despedir da tradicional casa de shows, Scott Shiflett nos fala sobre como manter a comunidade viva.

Nesta última semana, a tradicional casa de shows Hangar 110 anunciou que 2017 será sua última temporada de trabalho, e como era de se esperar, causou choque em toda a cena da música underground, não só de São Paulo, mas também de toda a região Sul e Sudeste brasileira. Não era pra menos, a casa abriu as portas em 1998, e desde lá serviu como berço de muitas bandas punk na cidade, assim como catapulta para bandas de fora da cidade, e até mesmo do estado, fazerem seu nome para conquistar espaço na cena musical.

Aliás “cena” talvez não seja o termo correto, pois a casa foi responsável por criar toda uma comunidade. Sem ela dificilmente teríamos o boom das bandas de hardcore que alcançaram sucesso nos anos 2000, e se hoje temos uma comunidade punk muito mais fortalecida, comparado ao que era décadas atrás, devemos em enorme parte ao Hangar. Nesses últimos 18 anos o Alemão e a Cilmara, proprietários da casa, sempre fizeram questão de permanecerem sempre honestos e diretos com a proposta do estabelecimento, que é desde 1998 a mesma: Rock ‘n’ Roll.

Porém eles alegam que algo mudou de lá pra cá. A falta de conectividade de pessoas, tanto com o momento, quanto uma com a outra mostrou-se um fator essencial na difícil decisão dos donos da casa. Seja pela imensa presença que a internet conquistou em nossas vidas, ou pelo acomodo das pessoas em relação as circunstâncias do cenário atual, não só musical mas também social. É algo compreensível, e assim como ao mesmo tempo todos nós da comunidade ‘independente’ tenhamos sido pegos desprevenidos, podemos argumentar que talvez há sim de fato uma luz no fim do túnel.

Definitivamente, não somos a primeira, e nem mesmo seremos a última comunidade musical que lida com adversidades vindas do mundo de fora, não só a sociedade, a política, ou mesmo adventos tecnológicos se tornam barreiras para nós, mas muitas vezes nós mesmos também nos tornamos. Antigamente precisamos lutar muito contra preconceitos, lutando pela aceitação, e ainda hoje, mesmo que em escala muito menor, ainda existem sombras daqueles momentos primórdios do punk no Brasil. Todas cenas musicais chegam em um momento (ou vários) que surge algo que desafie sua sobrevivência. E isso não só aqui, mas lá fora também, desde os tempos de Beatles e Stones na Inglaterra, até mesmo Ramones e New York Dolls no CBGB’s, todos eles tiveram momentos em que precisaram se unir para garantir a sobrevivência da cena musical. Se não fossem os punks lá de NY, e os de Londres se unindo por um bem em comum, talvez nem estaríamos aqui hoje falando sobre o fim do nosso querido Hangar.

Aproveitamos o momento para bater um papo com Scott Shiflett, baixista da banda Face to Face. Scott é veterano da cena punk californiana dos anos 90, assim como seu irmão, Chris Shiflett, que tocou guitarra no No Use For a Name, e posteriormente veio a fazer maior sucesso quando se juntou ao Foo Fighters. Scott se manteve no cenário underground até hoje, tanto com o Face to Face, quanto com projetos paralelos como o Viva Death, e Jackson United. Scott também quebra um galho para o irmão no Me First and the Gimme Gimmes, substituindo-o quando o mesmo tem compromissos com o Foo Fighters.

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Confira aqui alguns conselhos deixados pelo Scott Shiflett para o cenário brasileiro.

CRASSO Records: 01. Primeiramente, na sua opinião, quais são as coisas mais importantes que uma banda deve fazer? (Fora, claro, escrever boas músicas)

SCOTT SHIFLETT: Encontrar pessoas que você gosta de estar junto, mesmo que tenham estilos diferentes, contanto que se dêem bem e se divirtam tocando. Isso é o mais importante, não adianta só querer ‘fazer sucesso’, você precisa realmente amar música, na minha opinião.

CR: 02. Como você vê a importância de fazer tours?

SS: Fazer shows (touring) é um ótimo caminho para as bandas verem se elas realmente têm o que é preciso para sobreviver, já de cara. E estar na estrada é um ótimo caminho para aprimorar as suas habilidades musicais, por ser bem diferente tocar ao vivo do que quando você está em estúdio ou compondo.

CR: 03. Como você compara o cenário local da Califórnia com o de outros estados e países?

SS: Existem pessoas legais em todo lugar que você for. Isso é uma coisa que você descobre quando começa a viajar com a sua banda, mas eu sou um garoto ‘Southern California’, então eu me sinto em casa aqui em Los Angeles (o caminho todo de San Diego até Seattle na verdade). “I’m a West Coast guy”.

CR: 04. Você sente falta de alguma coisa na indústria fonográfica de hoje em dia?

SS: Eu sinto falta de bandas um pouco mais ‘sujas’, a tecnologia fez com que tudo ficasse fácil demais, e eu sinto que as bandas deveriam brigar um pouco mais com a sua sonoridade… Mas acho legal qualquer tipo de música que as pessoas quiserem fazer.

CR: 05. No Brasil, muitos tendem a se espelhar principalmente em artistas/bandas internacionais. Quão importante é apoiar bandas locais?

SC: Sempre existirão artistas enormes e sempre existirá sucessos locais, mas a melhor coisa no mundo é quando uma cena surge na sua área, onde seus amigos e talentos locais estão fazendo algo que realmente está vivo. Um lugar para jovens ouvir a música de sua geração e geralmente isso é uma coisa local. Então, sim, encontre bandas locais, você se surpreenderá quão boas algumas delas serão. Músicas que você amará para o resto de sua vida…

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Para Scott, a chave de tudo é apoiar a comunidade e as bandas que fazem parte dela, e no final das contas isso não é um grande segredo, mas muitas vezes passa batido. O Hangar fechará as portas, mas ainda teremos todo o ano de 2017 para frequentar a casa antes de nos despedirmos para sempre. E mesmo após o fim, outros lugares continuarão existindo, e novos surgirão, o mesmo vale para bandas. No final das contas os tempos mudam, mas a autenticidade da cena independente deve sempre continuar a mesma, e isso tudo começa com nossa atitude. Vamos sobreviver.

Me First & The Gimme Gimmes – Area 4 Festival

Corazones Muertos – Crown Of Thorns (gravado no Hangar 110)

 

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