Skinhead: um estilo de vida.

Skinhead: um estilo de vida.

 

Algo comum de se ouvir é a associação equivocada do movimento skinhead com os ideais políticos do nazifascismo, porém o que muitos não sabem é que tal movimento tem várias vertentes que derivam muito entre si. Os skinheads devem ser estudados muito mais através de um olhar cultural do que político. Com isso, nada mais justo do que viajar no tempo pela história desse grupo para que seja possível desmistificar essa imagem banalizada que a mídia passa deles. Para isso, será necessário ir fundo, contextualizando a cena musical da Jamaica e Reino Unido na década desde 1960, em que o ska ganhou forças.

No final da década de 50, o ska nasceu na Jamaica, misturando a música negra norte americana R&B e Boogie, e lá ganhou forças e se expandiu na Grã Bretanha. O gênero tornou-se tão forte que não demorou para que, no inícios dos anos 60, surgisse um grupo de pessoas apaixonadas pelo ska, jazz e blues: os Mods. Claro que esse grupo ainda está um pouco distante do skinhead como conhecemos, mas ambos possuem algo muito marcante em comum, que é ter a música como criadora de relações socioculturais. Claro que a essência dos Mods era baseada na música, mas seus integrantes iam muito além disso, desde suas roupas de origem italiana até suas scooters, com que andavam pelas cidades.

 O grupo permaneceu um tempo em harmonia como uma unidade, porém uma parte dele percebeu que os Mods estavam se distanciando de suas raízes, que pertenciam à classe proletariada. Dessa forma, aconteceu a divisão entre “Peacock Mods” e “Hard Mods”. Os primeiros possuíam um poder aquisitivo maior, se importavam mais com suas vestimentas, eram mais refinados, menos violentos e mais ligados à arte. Tal vertente se transformou futuramente no psicodelismo, fazendo com que algumas bandas do estilo também mudassem seu som, como The Who e Pink Floyd. Os “Hard Mods”, por sua vez, pertenciam à classe média, tendo uma representatividade maior de proletariados e estavam mais próximos às raizes Mod. Os “Hard Mods”, no fim da década de 60, já estavam sendo chamados de “skinheads”, por conta de seus cortes de cabelo bem curtos, que assim eram mais práticos de cuidar e se diferenciar dos “Hippies”, grupo emergente a quem se opunham.

Estes primeiros skinheads da história não estavam ligados a questões políticas, sendo baseado especialmente pelo estilo de vida e o espírito de comemoração, que envolvia muita cerveja, música e futebol. No geral, era um movimento multiracial que prestigiava o ska e reggae jamaicano, assim como o soul americano. Foi nessa época que grandes nomes da música tiveram grande reconhecimento, como Laurel Aitken. Na década de 70, o cenário se modifica um pouco com o punk e suas vertentes emergindo, que conquistou muito o pessoal daquela época. Skinheads, então, se dividiram entre “Spirit Of 69”, que estava mais ligado às raízes de ska tradicionais do grupo, e os skinheads dessa nova era punk.

Por mais que as vestimentas dos skinheads punk se parecia com as dos skinheads tradicionais, o senso de contracultura desse novo grupo muito mais intenso. No final da década de 70, o próprio estilo punk se dividiu entre dois estilos, “2 Tone” e “Oi!”. O 2 Tone era mais ligado às novas bandas de ska que surgiam, como The Specials, The Madness, Sham 69 e The Selecter, levando de volta muitos skinheads à origem do movimento, que era toda abastecida pela música jamaicana e pela prática anti racista e anti fascista. Oi!, por sua vez, tinha um som mais agressivo e mais puxado para o street punk, que depois originaria o hardcore. Uma das principais bandas representantes do Oi! é a Cockney Rejects.

As coisas começaram a ficar preocupantes quando a Frente Nacional Britânica colocou todos os valores construídos em cheque, criando sua organização “Rock Against Communism”, usando bandas e seus respectivos seguidores a propagar mensagens de ódio de racistas e até nazistas. A maior parte dessas bandas era do Oi!, e é aí que começa a confusão. Apesar de existir este lado negro do movimento, não é sua totalidade e, novamente repito, não deve ser levado ao seu âmbito político. Ainda mais, não deve-se julgar o todo por uma pequena parte de envolvidos com esse tipo de ideologia.

Desde a década de 90, no cenário mundial da música, podemos nos deparar com três tipos de skinheads: os tradicionais, os rash e redskins e os boneheads. Os tradicionais, como o próprio nome diz, são os que ainda seguem o reggae e ska propagado no “Spirit Of 69”. Os rash e redskins são os mais anarquistas, que não se juntam com os patriotas, contra os valores a extrema direita.  Os boneheads são odiados pelos dois anteriores, por seus valores nazistas e fascistas. Curiosamente, os boneheads são os que menos tem valores referentes às raízes skinhead, ainda mais por estarem mais ligados ao hard rock, mas ao mesmo tempo são tidos como o grande estereótipo do movimento.

Mundo afora, há ainda um grande preconceito com o movimento skinhead, fazendo com que as pessoas o relacione diretamente com violência e intimidação, porém como já vimos essa não é a essência desses grupos. É, portanto, muito importante desmistificar este tipo de estereótipo para informar os desavisados. O importante é saber que skinheads ainda existem, propagando o amor pela música independente do posicionamento político e do que as pessoas pensam deles.